Arquivo do mês: março 2011

Flashmob fashionista

Quarta feira passada (16/03), quem estava na EACH pela manhã foi involuntariamente cobaia de um ‘experimento’ que as professoras Suzana Avelar e Beatriz F. Pires propuseram à turma de TM que faz Sociologia da Moda (3º semestre).

Duas semanas antes, os alunos receberam instruções de irem vestidos com algo que nunca usariam para ir à faculdade, ficando livre a forma como cada um interpretaria essa linguagem. O que inicialmente foi levado em tom de brincadeira no dia, se tornou um processo desesperador para a maioria – desde o momento após o exercício ser proposto até a manhã do dia combinado.

O critério de roupa que “nunca usaria para ir à faculdade” de cada pessoa foi diferente:

– Teve quem se vestiu de uma forma que nunca sairia de casa, e que causou estranhamento geral: fantasia, pijama..

-Teve quem usou algo que não se adequava ao estilo pessoal, e que apesar de causar desconforto interno, não causaria nenhuma reação ao ser visto por algum desconhecido.

-E por último, teve quem usou uma roupa que julgava inadequada para o ambiente, mas que a usaria em outra ocasião: shopping, balada, academia, etc.

Fotos: Thiago Phelipe

Foram poucos os colegas que não participaram, e acredito que o que transformava o exercício em algo ‘tão terrível’ era imaginar as possíveis reações no trajeto desde suas casas e na própria faculdade. Sair da zona de conforto requer coragem, e realmente algumas pessoas foram mais corajosas que as outras.

Dentro e fora do campus, sem nem imaginar o motivo do “flashmob fashionista”, as pessoas que observavam e esboçavam as mais diversas reações eram, na verdade, objetos de estudo. Muitas das reações previstas nem chegaram a acontecer: numa cidade como São Paulo, onde as pessoas estão correndo e na maioria das vezes, imersas em seus pensamentos e obrigações, muitas vezes não sobra tempo para observar o que se passa ao redor. Outro motivo poderia ser que, apesar de olharem e estranharem, as pessoas não tiveram nenhuma reação visível por não estarem próximos a algum amigo com quem pudesse comentar. Ou talvez simplesmente não vissem nada de mais, né? Tipo eu, que achei que estava super estranha, quando na verdade causei pouquíssimas reações visíveis.

O fato é que a imagem que achamos que as pessoas fazem de nós pesa muito, junto ao papel que exercemos na sociedade, subdividido em personagens que criamos em cada ambiente/situação, geram uma auto censura que impede que usemos tais roupas simplesmente para ir à faculdade num dia comum.

O critério é muito pessoal, depende da criação, da cultura e das experiências individuais. Através desse mundinho de “permitido” e “proibido” construimos nossa imagem, e nos relacionamos com a sociedade.

No fim, o que percebi foi que as pessoas de fora eram cobaias sim, mas mais do que isso: nós eramos as cobaias de nós mesmos. Pude avaliar o quanto eu me prendo aos padrões da sociedade, o quão pouco experimento, e perceber de uma maneira íntima a relação entre sociedade e indivíduo na Moda.

“A moda é uma constante tensão entre a distinção e a imitação”*. Mesmo quando achamos que estamos nos vestindo de maneira diferente do coleguinha, estamos inserido num padrão, na imitação. Não fosse isso, o que explicaria tamanho estranhamento no uso de saias por homens? Ou de maneira geral, o que tornaria qualquer coisa ‘inadequada’ para determinado ambiente?

Vale a pena ousar de verdade, pelo menos uma vez se despir de preconceitos e vestir o que quiser. Crianças: tentem isso em casa! E fora dela, principalmente. 😉

Beijoss

*Frase extraida do livro de uma das professoras dessa matéria: Suzana Avelar. Moda Globalização e Novas Tecnologias

Post criado com a colaboração do Thiago Phelipe.

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Lady Gaga e o retorno da Mugler

Olá!

Gente, por favor, sem preconceito com o título do post!!! Sei que vocês também dever estar FARTOS de ouvir falar nela, e certamente não esperariam ver seu nome num blog como esse. Mas não desanimem, leiam até o fim! haha

Não, não é a isso que viemos! hahaha

O fato é que, no final do ano passado, depois de muita especulação, foi anunciado que a Thierry Mugler (atualmente só Mugler), marca fundada pelo sujeito homônimo, voltaria a fazer parte do line up da Paris Fashion Week. Desde que Thierry se aposentou, no fim dos anos 90 (se não me falha a memória), a marca apesar de não paralizada, perdera muito do seu brilho de seu fundador e não se apresentava em nenhuma semana de moda.

A pergunta era inevitável: quem será o novo diretor artistico? Quem poderá dar uma cara nova à grife mantendo o DNA de Mugler? Quem? O responsável por esses looks absurdos >> Nicola Formichetti. Eu aguardei ansiosamente pelo retorno, apesar de já prever qualquer loucura relacionada com a Lady Gaga.

Gaga dando pinta na reestréia da marca.

De fato foi. Colocando o single “Born this way” como trilha e a própria na passarela, Formichetti conseguiu chamar atenção para esse retorno.

A princípio, achei meio repetitiva a coleção. Thierry ficou famoso pelas micro cinturas e maxi ombros e quadris, com tailleurs e vestidos sempre coladinhos no corpo; uma mulher bem sedutora –  e o desfile foi cheio de transparências, ombros, quadris e cinturinhas, nada de muito novo, exceto a Gaga em si.

Mais tarde, assistindo ao vídeo do desfile (aqui), percebi que umas das principais caracteristícas do trabalho original do estilista havia sido, graças a Deus, preservado – o desfile performático. E não somente por causa da estrela pop, mas pela própria forma que o resto das modelos se comportavam na passarela. Mugler, juntamente com Franco Moschino, foram os caras que deram vida ao desfile performático – não somente pelo cenário, mas por exemplo, colocando mais de uma modelo na passarela num mesmo momento, as quais encenavam poses, desviando o foco unitário que as apresentações geralmente tem.

(AQUI uma ótima compilação de vídeos de desfiles do Thierry. Perceba que, até mesmo o tal “cigarrinho fashion”, que Gaga encenou, não só não era novidade, como já tinha sido usado pelo próprio estilista em outro momento.)

Portanto, apesar da coleção meio “mais do mesmo” (linda de qualquer forma), a Mugler está ai novamente. Espero, sem muita esperança na verdade, que a ilustre presença da Gaga não dure mais que essa temporada. Quando o foco da apresentação de alguma marca é o casting e NÃO as roupas, a exemplo do que aconteceu na Colcci na última temporada (aqui), temos que ficar espertos: geralmente é prá esconder uma coleção sem muito potencial (não dizendo que foi o caso da Mugler).

Vale deixar também a reestréia do masculino da marca, muito mais lindo, e claro, sem a srta. vestido de Caco.

Que Thierry era incrível todos sabemos. Que venha o verão!!! (sem Born this way!)

até mais!

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Worth e a nova dinâmica da moda

Olá gente!

O blog andou parado por uns dias, mas já voltamos à ativa. : )

A partir daqui, iremos iniciar uma sequência de posts falando sobre a historia da moda e outras discussões sociológicas pertinentes. Sabemos que muita gente estuda história da moda por conta, mas determinados assuntos são sempre novidade para os mais recentes ingressantes nesse universo. Vez ou outra também daremos dicas de livros/filmes que tratem de temas legais, e que interessem a nós.

Nada mais justo do que começar falando do sujeito que cunhou a profissão de costureiro (atual estilista), nos moldes que conhecemos hoje.

Charles Frederick Worth era inglês. Até meados do séc. XIX, fazer roupa era ou artesanato ou comércio (no sentido de serem tratadas como arte, ou como simples forma de ganhar dinheiro). Worth foi o primeiro dos costureiros a se proclamar criador de moda, e a estabelecer em Paris um atelier, onde atendia suas clientes.

Worth

Claro que ele não foi o primeiro costureiro a montar um atelier na cidade-luz. A verdadeira inovação era a maneira como ele tratava suas clientes. Até então, os costureiros desenvolviam modelos de acordo com com os desejos da cliente em questão. Worth, apostando em sua capacidade criativa, jamais permitia que alguma cliente lhe dissesse o que fazer, ou como fazer. Ele foi o primeiro costureiro a assumir a posição de estilista, a partir do momento que as mulheres o visitavam e permitiam que ele desenhasse a roupa que ELE considerava mais adequada para elas.

Vestido de noite de Worth

Tendo ganho notoriedade por vestir a nobreza da época, Worth se impôe como arbitro de estilo, e dá início ao que será o sistema da alta costura, que irá se legitimar no começo do séc. XX. Worth também foi o primeiro a organizar um desfile de moda, mesmo que numa versão primitiva. Os desfiles aconteciam em seu atelier, e as modelos eram chamadas de sósias. Esses desfiles tinham a função de criar em suas clientes o desejo pelo novo, e obviamente de aumentar sua popularidade e crédito entre as damas.

Mas afinal, qual é a real importância dele, qual o principal legado?  Creio que a  constante busca pela renovação, e a criação de expectativa nos clientes quanto ao seu “mais recente trabalho”, o que pode ser chamado de sazonalismo. Ou seja, estabelecer novos lançamentos periodicamente, de acordo com a época do ano. Afnal, a moda vive de renovação, vive de se matar a fim de se recriar.

PS: O sistema da alta costura, que começa a tomar forma a partir dele, será discutido num post exclusivo. O termo alta costura, apesar de banalizado e muitas vezes erroneamente utilizado, tem uma teoria muito interessante por trás. Aguardem!

por enquanto é só : )

até mais!

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Iniciação Científica

OIE. Como vocês estão?

Como as aulas começaram essa semana, pensamos em criar mais posts relacionados ao curso de TM.

A Gabi, que está no mesmo ano que eu, tinha comentado que essa semana começava a participar de uma Iniciação Científica, e pedi que ela explicasse sobre isso aqui. Eu sei que muita gente deve saber já sobre IC, mas nada melhor que ter mais informações através de alguém que entrou em uma, não é mesmo?

A Gabi, fofa que é, fez esse texto pro blog:

“E ai galerinha, tudo bem?? Me chamo Gabriela, e estou no segundo ano deTêxtil e Moda da Universidade de São Paulo.

Dentro do objetivo deste blog, vou falar um pouquinho pra vocês sobre como ingressar numa Iniciação Científica.

Para começar, já explico que a IC é um incentivo da universidade à pesquisa, e é de certa maneira é um instrumento de formação. Ótimo para o currículo, especialmente para quem pretende seguir a carreira acadêmica, já que é concedido apenas aos melhores alunos.

Para participar, primeiro de tudo você deve ser um aluno de graduação… óbvio!hehe Preenchido este requisito, há duas maneiras:  ou você escolhe um tema e corre atrás de um orientador, ou procura um projeto já existente. Os professores muitas vezes tem interesse em pesquisar algum tema, mas não têm tempo suficiente para isso, e aí que um aluno interessado entra.  Ah, você não pode fazer uma Iniciação Científica sozinho, sempre tem que ser orientado e supervisionado por um mestre ou doutor.

No meu caso foi um pouco diferente, logo que entrei na faculdade o professor Luís Paulo Piassi, que disse ter percebido meu interesse pelas aulas, me chamou para participar de um grupo de pesquisa do qual ele era o orientador..isso na terceira semana de aula!! Eu confesso que nem sabia direito o que era, mas aceitei na hora!!  Então  ele me explicou qual era a proposta  de estudo e depois de várias discussões e leituras de textos finalmente chegamos ao meu objeto de estudo:

Estou desenvolvendo um projeto de pesquisa sobre o SteamPunk. Pra quem não sabe o que é, SteamPunk é um gênero da literatura de ficção científica com um senso estético muito evidente: trata-se do único ramo da ficção científica que se volta para o passado e não para o futuro como estamos acostumados,  interessante não é?? No  SteamPunk, durante o século XVIII e XIX, a humanidade teria alcançado um nível de desenvolvimento tecnológico maior do que o que realmente aconteceu. Assim, existiriam várias máquinas que existem hoje já naquela época, mas baseadas na tecnologia do vapor e eletricidade. Pra ficar mais claro, exemplos de obras Steampunk são: Frankenstein, Van Helsing e A Liga Extraordinária. Ao longo dos anos, esse estilo foi criando uma extrema ligação com a estética e consequentemente ,  com a moda, sendo hoje um dos principais pontos dessa já chamada cultura….. e é exatamente isso que eu estudo:  a relação entre Moda e Literatura dentro do SteamPunk.

E ai, gostaram?? Então mãos à obra!!!!

Gabi Arlindo”

E para quem se interessou, mais informações aqui


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